Gastronomia por Roberta Sudbrack
18/05/2007 ..
Torre de babel ao vivo...
Tinha tudo para dar errado: a apresentadora, a nutricionista, a vegetariana e a cozinheira! O cenário propício para uma tremenda confusão! Ontem participei do ótimo programa do canal GNT, Happy Hour, com a Astrid Fontenelle. Fazer o papel de apresentador dos programas do GNT não é necessário. Na sua maioria são todos bárbaros, inteligentes, interessantes e super bem feitos. É um canal made in Brasil de dar orgulho aos quatro cantos mundo. E, como se não bastasse, é um dos únicos que dá a devida importância à gastronomia. Palmas para eles!
Continuando no mesmo canal, mas mudando de assunto, fiquei meio em dúvida se essa torre de babel que eles criaram para o programa de ontem, não desandaria com a receita. Fomos convidadas para falar sobre tendências, cozinha da moda. Como vocês já sabem a minha onda é antiga: respeito. Pensei assim que entrei no estúdio: “Meu Deus, ainda por cima me colocaram sentada entre a vegetariana e a nutricionista, estou perdida! Quando eu começar a falar elas vão querer me cozinhar sem muito azeite e pouquíssimo sal!”. A única vantagem é que a vegetariana provavelmente não me comeria!
Engano meu, foi um delicioso happy hour, divertidíssimo graças ao talento e a simplicidade da Astrid, que conduziu com maestria essa torre onde todos acabaram falando exatamente a mesma língua. Prova disso foi o final da noite. Todos sabem que é impossível me tirar do restaurante em dia de trabalho, então o meu acordo era claro: vou, mas assim que acabar tenho que ser imediatamente transportada de volta para o restaurante!
Não só foi cumprido, como fui transportada por toda a torre de babel, que se instalou na varanda do restaurante para a saideira! Provando mais uma vez que a gastronomia tem um quê de magia e sedução. Todos gargalharam, beberam e comeram como gente grande! Da nutricionista – que me fez até rever os meus conceitos – à vegetariana, que no final da noite já não estava mais tão convicta dessa prática diante da paleta de cordeiro de leite assada em baixa temperatura!
Comida da moda? Comida verdadeira. Preparada com ingredientes de qualidade e técnicas que privilegiem o sabor autêntico do produto.
Comida da moda? Aquela que agrega, dá prazer e faz gargalhar!
Até!
17/05/2007 ..
Para carnívoros e vegetarianos!
Não sejamos radicais, nem os carnívoros, nem os vegetarianos. Nossa terra tem palmeiras onde cantam sabiás para todos ouvirem e se deliciarem! O mesmo princípio pode ser aplicado para a receita a seguir: os vegetarianos vão sem carne, os carnívoros vão de roast beef! Dessa maneira ainda poderemos dividir a mesma mesa, o mesmo vinho, o mesmo pão, as mesmas gargalhadas e desfrutar do mesmo prazer. Só depende de nós, a gastronomia faz o seu papel proporcionando a democracia do gosto e nós fazemos o nosso, respeitando o de cada um!
Até!
Salada de quinoa, aspargos e roast beef
Por Roberta Sudbrack
Ingredientes: (para 8 pessoas)
• 100g de quinoa
• 8 aspargos
• 400g do miolo de um filé mignon
• Mostarda de Dijon
• Manteiga sem sal
• Azeite de oliva extra virgem
• Ciboulette finamente fatiada
• Vinagre de vinho branco
• Pimenta do reino moída na hora
• Sal
Modo de preparo:
Aqueça uma frigideira, acrescente manteiga e azeite na mesma proporção e doure o filé. Tempere com sal e pimenta do reino apenas depois de dourar todos os lados. Resfrie e reserve. Cozinhe a quinoa em panela com água, azeite e sal até ficar ao dente. Retire escorra em uma peneira, tempere e acrescente a ciboulette. Limpe os aspargos e grelhe na chapa quente até ficarem ao dente, tempere com sal e pimenta do reino. Prepare o vinagrete com 3 colheres de azeite, 1 de vinagre e 1 de mostarda de Dijon. Misture bem e acrescente água morna aos poucos até obter uma textura bem leve. Fatie o roast beef bem fino e sirva com a quinoa, os aspargos e a mostarda.
16/05/2007 ..
Alegria infantil
Sempre me inspiro no cotidiano para escrever os posts e nunca deixo de dar uma passadinha pelos comentários para ver o que encontro. Acabo, com esse passeio, encontrando coisas incríveis pelo caminho, reações sinceras – mesmo as que discordam que misto quente é tudo de bom – são manifestações verdadeiras! Verdadeiro é uma palavra que me encanta e me alimenta.
Alegria infantil foi o termo que a Samico usou para definir a minha sensação ao receber peixe fresco para o jantar. Voltei no tempo relembrando a última vez que ela foi jantar na casinha laranja para tentar enxergar essa reação. Era um jantar importante, uma retribuição de afeto e confiança, talvez das coisas mais importantes na minha vida. Nesse dia recebi dos meus mergulhadores, cavaquinhas vivas às 19h, ou seja, meia hora antes de abrir o restaurante!
Afeto e confiança, duas palavras que movem meu trabalho diariamente. O afeto pelo meu ofício, pelos meus clientes e pelo bom produto proporciona essa alegria infantil e a deliciosa possibilidade de mudar tudo de uma hora para outra! A confiança nos meus fornecedores, na minha equipe e na nossa filosofia de trabalho, apóia a minha loucura criativa e isso me faz feliz.
Confiança é talvez a palavra mais sagrada do meu dicionário. Sem ela não há amor, verdade, sonho, alegria, sensação alguma que possa se perpetuar. A confiança define as relações, traça o caminho que pode ser trilhado. A partir dela se escreve, ou não, uma história. Vive-se, ou não, o melhor da vida.
Afeto, na minha opinião é uma arte abstrata. Não necessariamente utiliza objetos próprios da nossa realidade concreta para se expressar, pelo contrário, pode se fazer existir através de qualquer coisa que se deseje. A arte abstrata usa as relações formais entre linhas, cores, superfícies e texturas para compor a sua realidade. O afeto também, muitas vezes a gente tem que reinventá-lo com o que tem nas mãos, redescobrir uma maneira de sentir, de expressar. A vida manda uma cacetada, a gente levanta, sacode a poeira e desenha uma linha por cima!
O dia-a-dia tem que prever uma boa dose essa alegria infantil, caso contrário, corremos o risco de perder a melhor parte do bolo, aquela repleta de brigadeiro!
Até!
15/05/2007 ..
As coisas que me emocionam...
Meu artigo na Revista do Globo desse domingo causou discussão, reflexão e emoção, essa última a melhor das sensações, na minha opinião. A gente tende a pensar que cada um se emociona com o que bem entende, mas não é bem assim. Emoção é coisa séria, tem personalidade e não se deixa controlar. Emoção não tem vontade própria e nem pré-estabelecida. Move-se conforme as suas próprias leis, mas é capaz de despertar sensações que até ela mesmo desconhece! Tem a capacidade de deixar a gente em situações de perigo sem pedir licença e o seu pudor é meio sem vergonha!
Enfim, emoção é coisa de gente grande e de gente pequena também, de cachorro, de papagaio e até de galinha, mas de preferência de Bresse! Emocionar, contudo, não é uma tarefa complexa, muito pelo contrário, pode estar diante dos seus olhos numa cena corriqueira do dia-a-dia. Pode ser esperada ou chegar sem avisar, vir com o tempo ou pode te pegar de calças na mão! Emoção é coisa genuína, não precisa de selo de controle de qualidade e nem de denominação de origem, você sentiu, ela é sua. E se é sua, é verdadeira, pode apostar!
Algumas coisas que me emocionam:
O cotidiano
O amor
Cachorro
Legumes orgânicos
Ervas frescas
Comida de butequim (boa!)
Café fresco passado em coador de pano
Bolo de nada, apenas bolo
A gargalhada da minha avó
Música
Arte, qualquer uma!
Arroz com feijão
Pão na chapa
A Revista Piauí
Chope na pressão
O terroir brasileiro
Os vinhos do terroir brasileiro
Peixe fresco
Comida boa
O livro “O sol dos Scorta”
Arroz novo e soltinho
A minha equipe
Cerveja belga
Salaminho, mas tem que ser artesanal
A serra
Lareira
O frio
A luz da lagoa no outono
Queijo bom
Pão bom
Uma boa crônica sobre o cotidiano
Azeite de oliva extra-virgem
Flor-de-sal
Demi-glace
Os sonhos
Estagiários (alguns)
Técnica
Ganhar presente sem esperar
Chocolate bom
Frutas da estação
Quem ama o que faz
E vocês?
Até!
14/05/2007 ..
Um dia de escritora...
Ontem, aproveitando que domingo é o meu dia de folga como cozinheira, acabei vivendo um dia de escritora! Não que eu tenha tirado o dia de folga como cozinheira, afinal ontem foi dia das mães, então nada mais justo do que cozinhar para a minha avó, que é mãe em dobro para minha sorte!
A Revista O Globo, que sai no jornal de domingo, publicou um artigo meu, mas o que me fez passar o dia acreditando que era escritora, foi a repercussão e os elogios que recebi. Na cozinha eu me viro, mas uma repercussão dessas com o teclado me assustou! Acho que está ficando grave essa história na minha vida. Além do perigo de começar a acreditar nessa bobagem, estou começando a perceber que sinto quase tanto prazer escrevendo, quanto cozinhando. Será que isso é possível?
Passei quase vinte anos da minha vida sem saber ao certo que diabos eu tinha vindo fazer nesse mundo até encontrar o caminho da cozinha. Hoje em dia, cada noite que a casa enche, e a gente entra em transe para atender todas as mesas ao mesmo tempo, meu prazer é quase perfeito.
Esse final de semana foi dos mais divertidos, casa cheia, gente simpática, feliz e...faminta! No auge da loucura, leia-se atender 40 pessoas ao mesmo tempo, a gente corre, grita, xinga, sorri – ou gargalha de desespero! - e segura a vontade de fazer xixi! É isso mesmo, é impossível pensar em sair da cozinha numa hora dessas. Nem pense nisso! No último sábado levei três horas até conseguir! Mesmo assim tive que parar três vezes pelo caminho para falar com clientes que queriam me cumprimentar, até finalmente conseguir chegar ao meu esperado destino: o banheiro!
Escrever começa a se mostrar parecido, muitas vezes para conseguir escrever todos os dias, abro mão de algumas coisinhas. Almoçar, por exemplo. Mas isso não é novidade. Poucas vezes a gente consegue na cozinha também. O que tem me preocupado é que, às vezes, também tenho entrado em transe escrevendo, vou me empolgando, sentindo aquela mesma adrenalina da cozinha, teclando, teclando e teclando! Outro dia li que a maior arma do escritor é a tecla “delete”. Achei graça e cheguei à conclusão de que definitivamente não sou escritora, já que pouco a uso. Vou escrevendo de uma vez, numa respiração só, sem parar para pensar. Só escrevendo assim sinto prazer. Será que isso é bom ou ruim?
Sei lá... O que eu sei, é que os dois – escrever e cozinhar - têm empolgado e alegrado os meus dias. O que me faz querer continuar, seja lá qual for o rumo que prosa possa tomar...
A diferença? É que escrevendo eu posso ir ao banheiro quando bem entendo! De resto, os dois são instigantes e deliciosamente fascinantes!
Até!
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